O velho Tom

Tom Jobim – O maestro da arte e da vida

(O amor, o sorriso, e a flor)

Por Rodolfo Terranova

A imagem que eu sempre tive do Maestro e Compositor Antonio Carlos Jobim, o nosso genial Tom Jobim, era de uma pessoa para quem a vida tinha sido muito fácil, tranqüila e cujo sucesso era como se tivesse acontecido num passe de mágica. Um privilegiado morador da sofisticada zona sul, um filho da elite do País, rico, para quem tudo tinha sido trazido de mão beijada.rápidamente…

Isso durante todo o tempo em que só enxergava o quadro cheio de glamour que a imprensa mostra, ou as pessoas imaginam que seja a vida de um Artista.

Quando li um dos livros de Ruy Castro, acho que sobre a Bossa Nova, tomei um choque!

O grande Tom Jobim tinha pago caro para se tornar o grande Artista que foi! Deixou sua juventude nas madrugadas cariocas, tocando seu piano exato, enxuto, perfeito, pleno de harmonias incrivelmente belas “desconcertantes”, que enchia as madrugadas da juventude carioca (que freqüentava as boates de Copacabana), de beleza, encanto, magia! Os maiores músicos de todos os tempos sabem o que fazem quando tocam seus instrumentos. Cada nota e cada acorde que utilizam precisam de fato, ser colocados ali.  Não se tem o que tirar nem por de suas músicas e dos seus arranjos. Assim era o piano do Maestro Tom Jobim.

(Como é também de outro músico e compositor chamado Johnny Alf – tão esquecido nas comemorações dos 50 anos da Bossa Nova )

Estou falando especificamente de “VIRTUOSISMO”, um recurso muito usado e muito pouco utilizado com talento e criatividade. Aliás poucos músicos tem capacidade de improvisarem com beleza, sem desvirtuarem o tema musical e sem ficarem monótonos. Eu pessoalmente não gosto do grande Violonista Yamandu Costa, quando ele começa a improvisar em cima da melodia…Não se consegue saber que música ele está executando…  Mostra um conhecimento musical imenso, uma familiaridade total com o instrumento, escalas, mas se extravia…Os verdadeiros Artistas têm domínio pleno da sua Arte e um cuidado imenso quando atuam, para não exagerarem . Assim era o nosso Maestro. Se  existe a perfeição, ele a alcançou, na  exatidão criativa, no cuidado extremo de não se exceder ao tocar o seu piano, no sutil emprego do acorde “imprescindível” e maravilhoso…o toque do piano de Tom Jobim…incrível!

Eu não estou nem falando da beleza das suas composições, pois isso precisaria de um livro para fazê-lo: Corcovado, Vou te Contar (Wave), Garota de Ipanema, Dindi e milhões de outras…o incrível  disso tudo é que ele era excelente tanto no fazer a melodia, quanto a letra das composições(compôs muitas das letras das suas músicas), quanto tocando o seu piano, bem como fazendo seus arranjos…

No livro, Ruy Castro fala que ele tocava na noite, isto é, trabalhava duro, ainda que fizesse o trabalho que amava, mas era um trabalho, um compromisso que exigia esforço, disciplina de estar ali todas as noites, varando as madrugadas para perfumar as almas com sua música.

Depois, já famoso no mundo inteiro, quando não estava se apresentando no Brasil e no Mundo, seu trabalho noturno de compositor e de arranjador era realizado no interior do seu apartamento, varando madrugadas sem fim, sempre ao piano, em busca da melodia mais bela, da nota mais pertinente, da harmonia perfeita…às vezes com Vinicius, às vezes sozinho…

Quer dizer, a partir do livro do Ruy é que passei a admirar também a pessoa humana do Maestro, porque antes, eu admirava apenas o Artista genial.

A verdade é que “o homem Tom Jobim era de uma simplicidade inacreditável para a fama, o prestígio e a popularidade mundiais que conquistou”!

Adorava passear no Jardim Botânico, freqüentar o Mercado que existe no Leblon (COBAL), onde se reunia com os amigos, recusou ficar nos Estados Unidos ganhando uma fortuna para fazer músicas para o cinema, porque preferia ficar aqui no Rio e desfrutar da vida mais simples e que tinha tudo a ver com ele.

Freqüentava também semanalmente uma famosa Churrascaria no Leblon, do seu velho amigo Alberico, onde adorava bebericar “o chopp dourado da felicidade “ como tão bem humoradamente se referia à essa ocasião descontraída de um bom papo com os amigos…

Outra coisa: ele sempre teve amigos ricos e também amigos pobres, (alguns moravam nos morros), e ele sempre manteve essas amizades por toda a vida.

A homenagem que a Mangueira lhe prestou, provou muito que ele era uma pessoa que circulava em todas as camadas da sociedade, mesmo tendo se originado da elite carioca da zona sul, condição que lhe valeu tanto preconceito.

Uma das suas mais belas composições é exatamente a que dá título a esta matéria: “O amor, o sorriso e a flor”, na qual ele fala que no início da sua vida (juventude) acreditava nas coisas boas, belas, na utopia, enfim nas coisas em que a juventude sempre acredita, porque é juventude, porque ainda não foi contaminada pelas mentalidades carcomidas…e vai seguindo na canção, dizendo que sofreu, chorou e perdeu a paz”…mais adiante, mais maduro e tendo meditado bastante e considerado todas as coisas, encontrou a paz, a realização, o sentido mais belo e maior da vida, “quando voltou ao amor, ao sorriso e à flor. ,,pois a própria dor, ensinou o caminho do amor e a tristeza acabou”…

Quer dizer, O maestro atingiu a sabedoria maior que foi aprender a viver como um Artista, a desfrutar da verdadeira e concreta Felicidade, e a ganhar dinheiro com poesia, no dizer de um seu parceiro muito querido, um outro Poeta, o nosso Vinícius de Moraes…

Rodolfo Terranova é Poeta e Autor Teatral
E-mail: vital_uchoa@hotmail.com
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