Ética Jornalística

 Dilemas Éticos da Profissão de Jornalista*

 Por Alexandre Madruga

A Ética Jornalística é o conjunto de normas e procedimentos éticos que regem a atividade do jornalismo. Embora geralmente não institucionalizadas pelo Estado, estas normas são consolidadas em códigos de ética que variam de acordo com cada país.

Atualmente, o jornalismo oscila entre a imagem romântica de árbitro social e porta-voz da “opinião pública” e a de empresa comercial sem escrúpulos que recorre a qualquer meio para chamar a atenção e multiplicar suas vendas, sobretudo com a intromissão em vidas privadas e a dimensão exagerada concedida a notícias escandalosas e policiais.

Jornalismo também definido como “a técnica de transmissão de informações a um público cujos componentes não são antecipadamente conhecidos”. Este particular diferencia o Jornalismo das demais formas de comunicação. Atualmente, termo Jornalismo faz referência a todas as formas de comunicação pública de notícias e seus comentários e interpretações.

O tipo de jornalismo de ética duvidosa ou contestável é chamado de imprensa marrom.

Buscando a opinião de profissionais que atuam nos dias de hoje, consultamos dois jornalistas, sendo um da imprensa televisiva e outro de rádio, respectivamente, Cláudio Renato da TV Globo e Francisco Aiello da Rádio Brasil.

Cláudio Renato é jornalista há 23 anos, trabalhou nos jornais O Globo, Estado de S.Paulo, Gazeta Mercantil, Tribuna da Imprensa e, há quatro anos e meio é produtor de reportagem do Jornal da Globo e do Jornal Nacional.

Francisco Aiello é jornalista há 20anos, trabalhou nas rádios Tropical FM, Nacional, Tupi e Globo. Atualmente está na Rádio Brasil.

Na busca da ética dentro do jornalismo, Renato afirma que ela não existe só para o jornalista. “Existe ética, claro, mas não é um ente metáfísico e sim uma possibilidade historicamente concreta de se desempenhar o ofício. A ética de um revolucionário bolchevique em plena Revolução de Outubro de 1917 na Rússia será diferente da de um armador grego do final do século XX. E quem há de negar ética ao revolucionário ou ao aristocrata?”, questiona Renato. Aiello acredita na prática para se alcançar à ética. “O conceito de ética é uma coisa muito importante e tem que ser praticada a cada dia”, afirma.

Para ambos os jornalistas a ética têm que ser discutida sempre, a todo o momento. Porém Renato prefere dar uma opinião a mais:

“O importante é que a ética, em jornalismo, seja permanentemente discutida, porque o desafio é diário, dada a rapidez com que se fecham as edições dos jornais. É claro que mentir, por exemplo, não é ético. Mas, às vezes, o jornalista omite a verdade para conseguir informações. Mas isso também é questionável. É muito difícil, do alto de um pedestal, julgar o comportamento ético em determinadas situações. No meu entendimento, jornalista sempre deve trabalhar e se apresentar como tal. Discordo dos disfarces, dos ocultamentos e das microcâmeras. Claro que, do meu jeito, as coisas ficam mais difíceis. Mas esse é o nosso ofício. É necessário que tenhamos raciocínio rápido, cultura e preparação psicológica para apurar, redigir e editar as informações. É até mais gostoso…”, sentencia Renato. No fato das câmeras escondidas, Aiello acredita que, em caso da “matéria tiver um objetivo importante, as microcâmeras podem ser bem utilizadas”.

Aiello crê que o conceito de ética é o cumprimento fiel e efetivo da profissão em todas suas definições, o respeito aos telespectadores, ouvintes e colegas de profissão.

Profissionais de renome, no Brasil, serviriam como exemplo de ética para os acadêmicos, e, com isso, Renato indicou o jornalista de São Paulo – Cláudio Abramo – que escreveu interessante livro sobre o assunto intitulado “A Regra do Jogo”. “Creio que todo o estudante de jornalismo deveria ler. Mas não dá para querer ser o olimpiano da ética. Gosto muito do Élio Gáspari, o melhor do Brasil em minha opinião. Ele é muito bem-informado, escreve muito bem, com interpretação isenta limitada pelos fatos”, afirma o produtor de reportagem do Jornal da Globo e do Jornal Nacional. Para Aiello, que, como citamos, é profissional de rádio, indicou o locutor esportivo e apresentador TV Globo, Luis Roberto.

Procurando exemplos vividos no dia-a-dia profissional, quanto a ética, e Renato conta uma história bem interessante:

“No caso da dona Vitória, a senhora que filmou os traficantes na Ladeira dos Tabajaras, fomos obrigados, em nome da segurança dela, a deixar de publicar as fitas e as entrevistas que ela nos repassou. Foi uma decisão editorial, mas até hoje ela pensa que fui eu quem vetou a reportagem na Globo. Creio que a emissora agiu bem, naquele momento. Mais tarde, um colega do Extra, Fábio Gusmão, publicou o material – que foi muito bem editado, diga-se de passagem – e ganhou o prêmio Esso de Jornalismo. Liguei para o Fábio, parabenizando-o. Graças a Deus, a quadrilha foi desarticulada e nada aconteceu com a dona Vitória.”

Questionado sobre a “anti-ética” na utilização de microcâmeras, então como fazer reportagens denunciativas sem a utilização desses equipamentos? Renato exemplificou um caso de 1996, quando ele entrevistou Elias Maluco na favela de Vigário Geral, para uma reportagem sobre o financiamento marginal dos bailes funks, publicada no Estado de S.Paulo:

“Estávamos eu e o repórter fotográfico Tasso Marcelo. Procuramos a Casa da Paz, fizemos contato com  a associação de moradores e chegamos à boca-de-fumo, sempre com o crachá que nos identificava como jornalistas. Para convencer o traficante a falar, foi necessária negociação intensa. Corremos muito risco, principalmente porque a polícia poderia a qualquer momento entrar na favela, e os bandidos nos tomarem como reféns. Os métodos de investigação jornalísticos, no meu entender, são diferentes dos da polícia. Não estamos preparados para nos infiltrar e não creio ético o ocultamento de câmeras. É possível, sim, denunciar, revelar, mostra a realidade sem microcâmeras. Excelentes trabalhos jornalísticos foram feitos, mundo afora, quando nem existiam esses dispositivos. O meu medo é que, daqui a pouco, jornalistas – que dizem fazer tudo pela informação – comecem a grampear telefones, a violar a correspondência alheia, o que é crime. O jornalista não é – e nem pode ser – um cidadão acima da lei!”.

No cotidiano da informação, vários profissionais trabalham de formas diferentes, e com isso, torna-se fácil encontrar dicas, reclamações e críticas na conceituação dos trabalhos alheios. Quanto a isso, Renato acha que todo trabalho deve começar sempre com a autocrítica. “O jornalista é crítico por excelência. Criticar honestamente um trabalho jornalístico pode sempre colaborar com o aprimoramento ético, que é um processo infindável. A crítica só não pode ser exercício de ressentimento e incompreensão – aí, há um risco de se ser anti-ético”, afirma Renato.

Dentre outros ramos ligados a jornalistas, existem os assessores de imprensa, que também estão sujeitos às condutas regidas pela ética da profissão, diante que a função deles é a divulgação de fatos com a opinião de seus clientes, ou seja, de maneira (normalmente) parcial. Renato acredita que o assessor pode ser ético com o cliente e com o colega de redação, e que o equilibro depende da competência profissional de cada um. “Conheço alguns assessores no Rio primorosos”, sentencia.

Maus profissionais poderiam ser descritos em nossa matéria, no entanto, Aiello que afirma já ter sido prejudicado por colega de profissão, preferiu não citar nome e Renato disse que “infelizmente acontece, sim, mas não me recordo agora de nenhum caso. E não gostaria de personalizar a questão, por uma questão ética”.

Os motivos do rompimento da ética, para Renato, seriam profissionais que normalmente se deslumbram, porque convivem com o poder, mas não são o poder. “São, na verdade, representantes de órgãos de imprensa. Acho que o jornalista deveria imaginar ter uma delegação dos leitores, para os quais devem se empenhar em noticiar e interpretar os fatos noticiados. O jornalista, nesse sentido, tem que ser franciscano. A humildade é muito importante”, finaliza.

Ao certo, o tema ética (e seus dilemas) deve ser comparado, discutido e aperfeiçoado a cada dia. Durante toda a vida profissional, devem-se seguir as regras do Código de Ética, em vigor desde 1987 que “fixa as normas a que deverá subordinar-se a atuação do profissional, nas suas relações com a comunidade, com as fontes de informação, e entre jornalistas”, para que seja-se capaz de obter objetividade e imparcialidade, sempre.

* Entrevistas da matéria concedidas em 2006.

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