1º de Maio

Os Trabalhadores são o Sal da Terra

Roberto F. da Costa

Empresários, membros das forças armadas, padres, pastores e jornais da grande mídia comemoram o dia 1º de maio como se fosse uma festa de todos os trabalhadores, somente uma data para homenageá-los, da mesma forma como temos o Dia das Mães. Logicamente querem fazer com que os trabalhadores esqueçam para sempre o porquê deste dia ser dedicado ao trabalho, omitindo a história do 1º de maio.

Como me dedico a ser diuturnamente a mosca que posou na sopa dos poderosos, o espinho que lhes incomoda no pé, vamos então relembrar.

Se hoje você acha que trabalha demais e não lhe sobra tempo para o descanso, para os amigos, para a família e para o lazer, saiba que em meados do século XIX a média jornada de trabalho diário nos EUA era de cerca de 15 horas. Lógico que os trabalhadores de então se revoltavam contra esta excessiva carga de trabalho, e os carpinteiros da Filadélfia foram os primeiros a fazerem uma greve pela redução para as oito horas diárias, em 1827. Cinco anos depois, em 1832, houve um movimento neste sentido em Boston. Em 1840 alguns governos dos EUA implantaram a jornada de oito horas diárias.

Em 1850 surgem as Ligas das Oito Horas, conseguindo a implantação desta jornada em diversos locais, mas somente a partir de 1884 a Federação dos Grêmios e Uniões Organizadas dos EUA e Canadá( a confederação dos trabalhadores daquele tempo) propõe uma greve nacional para implantação da jornada de oito horas, marcando a greve para o dia 1º de maio de 1886.

Os empresários não se renderam e contrataram marginais e ex-penitenciários para enfrentar os trabalhadores com base na violência, como por exemplo o bando dos famosos Irmãos Pinkerton, enquanto o governo mobilizou o exército contra os grevistas. A grande mídia apoiava a repressão aos trabalhadores, como hoje certamente fariam O GLOBO, O ESTADO DE SÃO PAULO, A FOLHA DE SÃO PAULO e a VEJA, chegando o jornalão CHICAGO TRIBUNE a escrever em editorial “O chumbo é a melhor alimentação para os grevistas. A prisão e o trabalho forçado são a única solução possível para a questão social. É de se esperar que o seu uso se estenda”. Talvez até por causa da atuação deste jornal nefasto, foi justamente em Chicago que as coisas mais esquentaram. Em uma manifestação de trabalhadores por ocasião da greve, no dia 04 de maio de 1886, na Praça Haymarket, uma bomba explodiu e matou um policial, generalizando-se o conflito quando 38 trabalhadores foram mortos e 115 saíram feridos.

A bomba pode ter sido lançada por um lunático, por um dos provocadores contratados pelos empresários ou por um trabalhador exaltado, até hoje ninguém sabe, mas o governo decretou estado de sítio em Chicago, determinou toque de recolher, ocupou com o exército os bairros proletários, fechou os sindicatos e prendeu 300 líderes do movimento grevista, que foram torturados nos interrogatórios. Sete sindicalistas e o jornalista Auguste Spies, do “Diários dos Trabalhadores” foram a julgamento (estão vendo como nem todos os jornalistas são vendidos e venais como Miriam Leitão, Arnaldo Jabor, Alexandre Garcia et caterva?), sendo hoje conhecidos dos historiadores como “Os Oito Mártires de Chicago”.

O julgamento foi uma farsa, com a condenação previamente decidida, tanto que o “Juiz” Joseph Gary, nomeado para conduzir o “Tribunal Especial” alardeava para quem quisesse ouvir que a bomba fazia parte de um complô mundial contra os EUA (?). O “Tribunal” começou em 17 de maio (somente 13 dias após a bomba!), com as 12 testemunhas escolhidas a dedo entre os 981 que se candidataram a jurados (?); as testemunhas foram criteriosamente escolhidas, incluindo três líderes grevistas cujos testemunhos foram comprados pelo governo. Apesar deste festival de manipulações não se comprovou a autoria pela bomba, mas o “Juiz” mesmo assim exarou sua sentença no dia 20 de agosto (somente 3 meses após a bomba?), condenando 7 dos acusados à morte na forca (incluindo nosso jornalista) e um deles a 15 anos de prisão.

Em razão de uma onda de protestos, 3 dos grevistas tiveram sua pena reduzida para prisão perpétua, um dos quais se chamava  Louis Lingg, que segundo versões da polícia, se suicidou em sua cela na véspera da execução dos 4 condenados à forca, marcada para o dia 11 de novembro de 1887. Os cinco corpos (os quatro enforcados, incluindo-se nosso bravo jornalista, e Linng) foram enterrados no mesmo dia.

Seis anos depois o governador de Illinois mandou reabrir o processo, concluindo o novo Juiz que nenhum dos condenados tinha cometido nenhum crime e que tinham sido vítimas inocentes de erro judicial, colocando-se então em liberdade os três sindicalistas ainda presos (mais de sete anos depois!!!).

Mas a morte e o sofrimento de tantos trabalhadores não foram em vão, pois no mesmo dia 1º/05/1886 cerca de 125 mil trabalhadores obtiveram as 8 horas diárias, e até o fim de junho de 1886 outros 200 mil foram beneficiados. Até o final de 1886, cerca de 1 milhão de trabalhadores dos EUA já tinham conseguindo as 8 horas diárias, até que em 1º de maio de 1890 o Congresso dos EUA regulamentou as 8 horas diárias de trabalho para todos.

Em 1891 a Segunda Internacional dos Trabalhadores decidiu em seu Congresso de Bruxelas que o 1º de maio seria a principal referência no calendário para todos que lutam contra a exploração capitalista, contra o capitalismo selvagem.

Por isso, quando no 1º de maio seu patrão te manda uma “lembrancinha”, ou paga uma festinha para todos os funcionários, seu intento é o de que se esqueça que este é um dia de luta e de luto; se esqueçam de que o sangue dos “Oito Mártires de Chicago” ainda mancha a sua mão; se esqueçam do quanto jornalistas covardes preferem bajular os poderosos de sempre, em detrimento da verdade, insuflando a repressão contra um movimento legítimo e justo.

Para terminar com chave de ouro este artigo, transcrevo os versos do hino A INTERNACIONAL, de autoria de Eugène Pottier e Pierre Degeyter, que deveria ser conhecido por todos quanto vivem de seu próprio suor, e não da exploração do suor alheio:

A INTERNACIONAL

“De pé, ó vitimas da fome
De pé, famélicos da terra
Da idéia a chama já consome
A crosta bruta que a soterra

Cortai o mal bem pelo fundo
De pé, de pé, não mais senhores
Se nada somos em tal mundo
Sejamos tudo, ó produtores

Bem unidos façamos
Nesta luta final
Uma terra sem amos
A Internacional

Senhores, Patrões, chefes supremos
Nada esperamos de nenhum
Sejamos nós que conquistamos
A terra mãe livre e comum

Para não ter protestos vãos
Para sair desse antro estreito
Façamos nós por nossas mãos
Tudo o que a nós nos diz respeito

Bem unidos façamos
Nesta luta final
Uma terra sem amos
A Internacional

O crime de rico, a lei o cobre
O Estado esmaga o oprimido
Não há direitos para o pobre
Ao rico tudo é permitido

À opressão não mais sujeitos
Somos iguais todos os seres
Não mais deveres sem direitos
Não mais direitos sem deveres

Bem unidos façamos
Nesta luta final
Uma terra sem amos
A Internacional

Abomináveis na grandeza
Os reis da mina e da fornalha
Edificaram a riqueza
Sobre o suor de quem trabalha

Todo o produto de quem sua
A corja rica o recolheu
Querendo que ela o restitua
O povo só quer o que é seu

Bem unidos façamos
Nesta luta final
Uma terra sem amos
A Internacional

Nós fomos de fumo embriagados
Paz entre nós, guerra aos senhores
Façamos greve de soldados
Somos irmãos, trabalhadores

Se a raça vil, cheia de galas
Nos quer à força canibais
Logo verás que as nossas balas
São para os nossos generais

Bem unidos façamos
Nesta luta final
Uma terra sem amos
A Internacional

Pois somos do povo os ativos
Trabalhador forte e fecundo
Pertence a Terra aos produtivos
Ó parasitas deixai o mundo

Ó parasitas que te nutres
Do nosso sangue a gotejar
Se nos faltarem os abutres
Não deixa o sol de fulgurar

Bem unidos façamos
Nesta luta final
Uma terra sem amos
A Internacional”

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