Momento Literário

Por Alexandre Madruga

O mundo é capaz de fabricar histórias de vida e criar personagens incomuns, mas não menos importantes para a história da humanidade. De pequenos contos, vivências, conseguimos encontrar um novo parâmetro em nossas vidas, em qualquer tempo.


Essa história se passa muito antes de nossa era industrial, numa pequena localidade do interior, conhecida como Baritor, numa cidade de Zuneste.
Naquela singular cidadezinha, havia homens e mulheres determinados a crescer ajudando ao próximo. Não como uma corrente de solidariedade, mas sim numa linha de crescimento intelecto-comportamental. Suas abnegadas posturas tinham apenas o intuito de promover a igualdade, focando apenas na transmissão e disseminação do conhecimento. Acreditavam que as grandes cidades estavam contaminadas apenas pela busca incessante e desenfreada do lucro, e que isso iria corromper mentes e homens, causando uma doença secular.

Pensando no ser humano como parte mínima do universo, contudo um elo importante da vida e do futuro de humanidade, os abnegados de Baritor sofriam na árdua missão de ensinar aqueles que já viam a moeda, como única alternativa de crescimento.

Daquele pequeno grupo, mulheres tornaram-se líderes dentro da cidade, como Helmas, esposa de um curandeiro que ajudava famílias de uma sociedade mais distante e sem recursos. Era comum dentro da família existirem tantos colaboradores, produtores de humanidade. Era a passagem do bem, de geração para geração.

Mas Helmas estava envelhecendo, e ela não tinha outros de seu sangue para repassar sua vida e seus conhecimentos. Foi quando ela descobriu um jovem, audacioso e perspicaz, que poderia ajudá-la na continuidade da saga. Ela deteve sua função de líder como o cuidar de um filho em eterna gestação. Porém, a gestação durou tempo demais, era necessário abortar aquilo e começar a geração de outro filho, mais eloqüente, moderno e situado nos contextos daquela sociedade atual. Ela sabia que suas teses eram boas, mas precisavam de uma dose de jovialidade, e aquele jovem, que soube se chamar Vercanti, talvez fosse a solução.

Vercanti era um jovem humilde. Desde muito cedo trabalhou no corte a lenha, ajudando a comunidade no trabalho voluntário de manter pessoas carentes aquecidas, nas ruas da cidade. Depois disso, conquistou senhores feudais de outras cidades com sua visão empreendedora, ganhando com isso status de realizador.

O ser visionário que era, tornou-lhe principal fomentador de atividades diversas voltadas à comunidade, mas ele sempre buscava maneiras de tornar tudo melhor.

Ao longo da vida, Vercanti ganhou a vida em cargos pequenos, mas graças a sua ambição por aprender, crescia rapidamente em cada um deles. Por mais que ganhasse financeiramente mais, não lhe importava isso, se conjuntamente não lhe viesse o benefício do crescimento interno, intelectual ou como ser humano. Pensando assim, largou inúmeras chances de estabilidade, sempre na busca incessante por evolução.

Contudo, sua presença em inúmeros trabalhos, tendo passado por todos de maneira correta e exemplar, deixou-lhe portas abertas e o conhecimento daquelas pessoas. Isso o ajudou a crescer e evoluir.

Após anos de pliegos e folhetins, resolveu embrenhar-se nos Kapitonai, uma pequena camada societária muito respeitada pelo seu vasto conhecimento, sendo os únicos responsáveis pela formação de Desbravadores, aqueles que poderiam ter acesso ao conhecimento mais vasto, mas não poderia disseminá-lo, incumbência única e exclusiva dos Kapitonai.

Mesmo Vercanti sabendo de suas qualificações, faltava-lhe a chancela oficial de Desbravador, o pergaminho da IIIª Dinastia. Aos mais simplórios, satisfazia apenas os pergaminhos das Iª e IIª Dinastias. Mas Vercanti queria mais, e foi atrás.

Com seus poucos réis, mas com os muitos amigos conquistados, conseguiu entrar na Sociedade da IIIª Dinastia, e lá, como sempre foi em outros locais, cresceu e virou um colaborador de grande valia. Mas ele vislumbrava entrar naquela Sociedade, onde tinham muitos Kapitonai. Convivendo lá, poderia saber o caminho para se tornar um deles.

Seus bons trabalhos o fizeram um alferes dentro da IIIª Dinastia. O Alferes seria um serviçal, colaborador oficial dos Kapitonai. E esse período foi o renascimento de Vercanti. Graças ao contato mais intenso com os Kapitonai, descobriu como se tornar um, mas primeiro precisava ser um Desbravador. E tempo depois se tornou um.

Já como Desbravador, Vercanti aplicou toda sua visão futurística, quebrando paradigmas, ampliando horizontes. Simples ações pareciam audaciosas decisões. Mas a beleza de todas as ações estava na humildade e na simplicidade de suas posturas. Mas o Desbravador Vercanti já parecia um Kapitonai pela sua eloqüência, sabedoria e simpatia com alferes e meros serviçais.

Na dificuldade de se falar com algum Kapitonai, que vivia num mundo diferente, muitos procuravam o Desbravador Vercanti como conselheiro, buscando um dia ser como ele. Mas Vercanti era humilde demais, via-se apenas com um amigo, ajudando tantos amigos. Aquela referência ficaria guardada na mente de tantos pretendentes a Desbravador, e faria de Vercanti um exemplo a ser seguido. Para ele, isso era uma responsabilidade. Mas como queria ser um Kapitonai, aceitava o fardo com presteza e alegria.
Mas Vercanti também incomodaria outros, que deturparam o conhecimento recebido, que fizeram do altruísmo seu principal sentimento. Ele lutou contra esses insensatos, falsos Desbravadores, que confundiram o legado recebido, e fizeram do seu próprio ego o futuro que ansiavam. Mas são Desbravadores mais antigos, com idéias arcaicas e defasadas, sem a noção de que outras pessoas são capazes de crescer.

Dizia ele, “Sou incompreendido porque minhas idéias são muito complexas, sou um homem do futuro. Hoje sou incompreendido, mas um dia ainda serei lembrado como um visionário”.

Dias depois Vercanti devolveu o título de Desbravador, abandonou a ideia de se tornar um Kapitonai. Pensou que assim, poderia seguir a vida com seus conceitos, diretivas e fundamentos, sem que precisasse de um título para referendar isso.

Ele acabou por se tornar o sucessor da líder Helmas, que idosa e doente, lhe passou a incumbência de continuar seu legado, sem as benesses dos que podiam transmitir conhecimento, mas firme no propósito de ajudar sua comunidade.

Vercanti acabou morrendo cedo, entediado por ficar restrito apenas a sua comunidade, sem poder ter o contato dos futuros desbravadores e frustrado por uma sociedade superior repleta de altruísmo e sedenta por poder.

Foi reconhecido como visionário, mas somente depois de falecer. Morreu pobre, mas rico como ser humano.

MORAL DA HISTÓRIA: Premie a iniciativa daqueles que pensam audaciosamente, que ousam. Ter medo de errar tira a vontade de acertar. Na vida, a trilha da evolução é sempre uma subida. Quando se torna um reta, é sinal que você parou no tempo.

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